Notícias de Cambuí

11/03/2015

SERIA O FIM DO VOO LIVRE EM CAMBUÍ E CÓRREGO DO BOM JESUS?

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A modalidade mais difundida do voo livre nos dias atuais, o parapente, também conhecido como paraglider, chegou a Cambuí e Córrego do Bom Jesus no ano 2000, ganhando muitos adeptos e um clube, o Clube de Voo Livre Asas de Minas. A fim de divulgar o esporte na região, realizou-se em Córrego do Bom Jesus, já no ano de 2002 o primeiro Fest Fly que, acompanhando o crescimento do esporte, acabou tornando-se um dos maiores eventos da modalidade no país. Realizada anualmente até 2012, era considerada a maior festa de voo livre do Brasil e com o maior público para este tipo de esporte. Praticado a altas altitudes e difícil de ser acompanhado por quem está em terra, o diferencial ficava por conta de sua realização no pouso oficial, localizado na Vargem dos Lopes, com a presença de barracas de comes e bebes e shows musicais, contando ainda com um narrador que mantinha o público informado sobre o que acontecia no ar, algo inédito para o esporte até então.

As melhores rampas para a prática do esporte na região concentram-se em Córrego do Bom Jesus, incluindo o Pico da Raposa no bairro Campo dos Raposos, onde era realizado o Fest Fly, mas Cambuí possui a de acesso mais fácil, o Morro do Cruzeiro, onde se chega de carro do centro da cidade até o topo em menos de 5 minutos. Com certeza uma das rampas de mais fácil acesso do país, se não for a mais. O único porém é sua baixa altitude, que torna o voo rápido caso o piloto não encontre uma térmica (vento ascendente) para ganhar altitude, mas que era recompensada pelo pouso fácil ao lado do morro onde poderia subir novamente para tentar um novo voo.

Indiscutivelmente de alto risco, a falta de respeito com a natureza e com os próprios limites sempre foi o fator de maior influência nas estatísticas de acidentes, e mesmo nunca havendo um acidente fatal por aqui, muitos pilotos acabam se afastando por motivos diversos, embora o receio de um acidente seja o principal deles. Isto acontece invariavelmente, e a renovação sempre foi algo que manteve o esporte em alta. O fato é que de alguns anos para cá esta renovação não vem sendo feita, diminuindo progressivamente o contingente de praticantes e novos fatores que explico a seguir agora colocam em risco os locais para a prática do esporte que corre o sério risco de limitar-se a poucos resistentes que inevitavelmente precisarão buscar novos sítios de voo caso nada seja feito pelo poder público.

O primeiro fator é, indiscutivelmente, a ausência do Fest Fly nos últimos dois anos no calendário festivo e esportivo de Córrego do Bom Jesus. A festa sempre foi um chamariz para interessados em conhecer o esporte, que acabavam tornando-se novos pilotos, além de atrair muitos turistas durante e após a festa, movimentando a economia da cidade. Os motivos para a não realização da festa é política, simplesmente. Embora os benefícios sejam bem explícitos, parece não haver interesse político em fomentar o turismo na cidade. Embora grandiosa, a festa nunca deu o devido retorno aos organizadores, em especial o Clube de Voo Livre Asas de Minas. O retorno sempre foi para a própria cidade, tendo seu nome divulgado em todo o país e colocando-o no mapa dos maiores eventos da modalidade.

O interesse político limita-se apenas à realização da festa para benefício próprio de imagem e propaganda com fins eleitorais, esquecendo-se que o esporte é praticado durante o ano todo, atraindo turistas que necessitam de infra-estrutura. A falta de investimento no setor é evidente e configura-se a verdadeira causa por trás do fim do Fest Fly. Depois de várias conquistas como a desapropriação da rampa e a construção do trilho de acesso à mesma em parceria com o CVLAM, há agora uma queda de braço entre clube e prefeitura para a construção de sanitários e uma área coberta para melhor atender o turista, reivindicação mínima para a realização de um improvável próximo Fest Fly. Durante a visita de uma famosa apresentadora de TV que visitou o local em 2014 para uma matéria, foi constrangedor para os presentes a mesma precisar fazer suas necessidades no mato pela falta de um banheiro.

Agora um novo fator parece jogar uma pá de cal sobre as expectativas de uma nova festa. Uma rede trifásica de 3800 volts foi instalada junto ao pouso para alimentar a bomba de um poço artesiano, tornando o local perigosíssimo para a realização de um evento do porte do Fest Fly. Devido ao grande número de parapentes que ali fazem a aproximação para o pouso, que agora correm o sério risco de um acidente fatal tanto durante a festa quanto o restante do ano. Isto tudo depois de várias reinvidicações do CVLAM para a retirada de uma outra rede já existente, sem sucesso. A necessidade da rede é inquestionável para a comunidade, mas demonstra o total desacordo da atual gestão entre os setores de turismo e de obras, já que haveria outro modo de levar esta rede para o local. Mesmo excedendo o custo atual da obra, seria claramente compensável pelo retorno turístico em curto prazo. Córrego do Bom Jesus possui na entrada da cidade uma placa com os dizeres "Cidade do Voo Livre" que merece urgentemente ser revista.

Do lado de Cambuí nunca houve qualquer interesse político na prática do esporte ou no turismo, que após uma longa luta para conseguir o acesso do Morro do Cruzeiro pelos pilotos, a única rampa da cidade nunca viu qualquer sinal de investimento em infra-estrutura. Com uma vista panorâmica da cidade de beleza inquestionável, o mirante da cidade está largado pelo poder público. Agora o esporte corre o sério risco de desaparecer também do local, já que o pouso que era utilizado, de propriedade privada, foi loteado. Embora a causa não seja somente política, a falta de interesse continua evidente. Há ainda outras alternativas de pouso, bem menos cômodas e mais distantes. Mas até quando? Fica a pergunta.

Sem a perspectiva de um novo Fest Fly, do surgimento de novos pilotos e consequente crescimento do esporte, da ausência do turista e agora a escassez de locais seguros para pouso, em pouco tempo veremos o esporte que ainda bravamente colore os céus de ambas as cidades desaparecendo aos poucos, caso nada seja feito. Ainda resta a esperança de que tanto o poder público quanto a própria comunidade tome consciência da importância do esporte e do turismo, caso contrário o voo livre será apenas uma bela recordação em fotos de um passado glorioso.


Alessandro Souza é editor do Cambuí Online e presidente do Clube de Voo Livre Asas de Minas.